sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O CORVO

Vivia eu
Dia solitário
Dia triste
Cabeça vazia
Pensamento oco
Quando me chegou
Um corvo
(Não sei se lúgubre
Não sei se aziago
Não sei se ogro)
A pedir-me pouso

Explicou:
Vinha de um tempo
Já prescrito
Fora despejado
De uma cripta
Da qual
Tinha documentação
Legalizada
(Firma reconhecida)
Compreendi
(Sei o que é burocracia)
Aquiesci
(Precisava
Mesmo
De companhia)
E lá se foi a ave
Agradecida
Buscar esposa
Buscar concubina

Instalaram-se
Os três
Na minha referida
Caixa craniana
Criaram descendência
(Eu criei dependência)
Ali viveram
(Melhor dizendo:
Ali vivemos)
Até o momento
Em que o espaço
Ficou parco:
Bateram asas
Bateram em retirada

Levando apêndice
LAVRA

Olhei
O pedaço de pasto
Pensei:
Vou plantar bosque
Para os passarinhos
Que terão frutos
Sementes
Galhos para seus ninhos

Arregacei as mangas
Lancei-me ao serviço
Logo
Tudo era sibipiruna
Oiti
Angico

Chamei as aves
Entreguei-lhes
Escrituras e chaves
Conferi minhas asas
(As penas
Haviam sido cortadas)
Já estavam aptas

Voei

DESCARTE

Tirei a tristeza
Do armário
Dei um trato
Levei pra passear

Ela empolgou-se
Na rua
Embriagou-se
Com o perfume
Da murta

Ficou por lá

quinta-feira, 23 de julho de 2015

OLHOS DE VER


OLHOS DE VER

Pintaram
De branco
A casa feia

Plantaram arbustos
E beijos
No quintal

A chuva
Encarregou-se
Do lago:
Empoçou no quintal

Vejo e ouço
O homem
Que pergunta
Da rua:
-Oh, de casa!
Estou em Agra?
Este é o Taj Mahal?


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

LONJURAS


São as lonjuras
Que me desanimam
Que me detêm:
Mais
As da linha do tempo
Que as da linha
Do trem

(in CADERNO DE DESAPONTAMENTOS)

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

sábado, 30 de novembro de 2013


JARDIM SEDUTOR

Seduzir-me
Por quaisquer meios
Foi a decisão que tomou
(Tenho certeza)
Este jardim

Não fosse pelo roxo
Da laelia purpurata
Seria pelo laranja vivaz
Da strelitzia
Ave-do-paraíso
Disfarçada

Pelo vermelho- bispo
Do hibisco
Pelo lilás do lilás
Pelo branco magnífico
Do lírio-da-paz

Ok
Jardim:
Rendo-me
Ao teu encanto
Também
Pelo azul convicto
Do agapanto

(Aliás...
E a gota luzidia
Que tremula
Sobre a folha da begônia
À guisa de zircônia
Incrustada ali?